terça-feira, 9 de maio de 2017

Já temos uma mão cheia (de anos)!

E pronto, chegamos hoje aos cinco anos de vida, por um lado munidos de um sentimento de felicidade por termos alcançado este número, mas por outro cientes de que as vitrinas deste Museu Virtual do Desporto Português ainda se apresentam muito despidas de factos e histórias que dão vida ao rico historial desportivo do nosso país. Sabemos que a tarefa de evocar os feitos e figuras do desporto nacional exige uma investigação permanente que nem sempre tem sido possível devido à estonteante velocidade que o comboio da vida circula nos dias de hoje, mas também estamos convictos do desejo em ultrapassar este contratempo de modo a dinamizar no futuro imediato este nosso (vosso) espaço virtual.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Há 40 anos o Sporting rugia mais alto no principal palco do corta mato europeu

Aniceto Simões, Carlos Lopes, Fernando Mamede
e Carlos Cabral seguram a primeira TCE
que viajou para Portugal
Cumpre-se neste ano de 2017 o 40º aniversário da primeira vitória do Sporting na Taça dos Clubes Campeões Europeus de corta mato (no setor masculino). Primeira dos leões e de um clube português, há que sublinhá-lo. Feito ocorrido em Palência (Espanha), no dia 6 de fevereiro de 1977, altura em que quatro leões entraram para a história do atletismo nacional ao conquistarem um até então inédito troféu continental que desde a sua criação (em 1962) havia sido amplamente dominado por equipas belgas e inglesas, com uma ou outra intromissão de combinados alemães e espanhóis. De uma forma mais precisa há que recordar que a Taça dos Campeões Europeus (TCE) de Corta Mato até 1977 havia sido ganha pelos belgas do Liègeois (entre 1970 e 1974), do Saint Gillooise (1964), pelos ingleses do Portsmouth (1965 e 1966), do Derby County (1962 e 1963), do Staffs Stone (1967), pelos alemães do Darmstadt (1969) e pelos espanhóis do Palência (1975 e 1976). No plano individual, Phillipp Lutz, atleta oriundo da então República Federal da Alemanha, era aquele que mais vitórias havia conquistado nesta competição: três (uma ao serviço do Darmstadt e duas com as cores  do Liègeois).
Estatísticas à parte e voltando à efeméride que hoje fazemos eco aqui no Museu, recordamos que a TCE de 77 teve como caminhos a cidade espanhola de Palência, precisamente o berço da equipa que havia vencido as duas edições anteriores e que partia como grande favorita à conquista do tri. Porém, a concorrência falou mais alto, ou neste caso, rugiu mais alto, atendendo a que o Sporting - que participava pela primeira vez na competição - cortou a meta em primeiro. E fê-lo através de um dos maiores atletas portugueses de todos os tempos, por intermédio daquele que é provavelmente o Deus do atletismo luso, Carlos Lopes de seu nome. Juntamente com Fernando Mamede, Aniceto Simões e Carlos Cabral, ele deu vida a uma lendária equipa arquitetada por outro génio da modalidade: professor Mário Moniz Pereira. Equipa que chegou a Palência com 28 títulos de campeão nacional de corta mato no bolso (!) e com legítimas aspirações a trazer pela primeira vez para Portugal o pomposo título. Os leões cedo mostraram esse desejo ao controlarem a prova do princípio ao fim. Carlos Lopes chamou a si de pronto papel de protagonista da corrida, assumindo desde o tiro de partida a liderança, a qual não mais largou até cortar a meta em primeiro lugar. Os restantes atletas leoninos em prova, Fernando Mamede, Aniceto Simões e Carlos Cabral, terminaram a corrida respetivamente nos 6º, 8º e 26º lugares. Para Carlos Lopes este era o segundo título internacional de corta mato consecutivo, já que um ano antes ele havia vencido (com as cores de Portugal) o Campeonato do Mundo que se realizou em Chepstow (País de Gales).

Carlos Lopes
O triunfo do Sporting em Palência abriu portas para uma era gloriosa deste emblema na TCE de corta mato, já que até 1994 os leões conquistariam a prova em mais 13 ocasiões (!), facto que lhes permite liderar a lista de clubes que mais vezes subiram ao trono do corta mato continental, 14 no total (nos anos de 1977, 1979, 1981, 1982, 1983, 1984, 1985, 1986, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993 e 1994), seguido de longe pela equipa espanhola da Adidas (8), dos belgas do Liègeois e dos portugueses do Maratona (ambos com 6). 
No plano individual, Carlos Lopes ajudou o Sporting a conquistar metade - ou seja sete - das TCE de corta mato que o clube alberga no seu museu, sendo que em três delas (1977, 1982 e 1985) terminou a prova no primeiro lugar. Também Fernando Mamede esteve em sete dessas conquistas, terminando em 1º lugar por duas ocasiões (1981 e 1983). Já Aniceto Simões participou nas três primeiras conquistas europeias dos lisboetas, alcançando como melhor posição um 7º posto, ao passo que Carlos Cabral somente participou na célebre conquista de 77.
Para terminar, e continuando o rol de memórias estatísticas, há que referir que o atleta que mais ocasiões subiu ao 1º lugar do pódio nesta TCE de corta mato masculino foi Domingos Castro, em cinco ocasiões, sendo aliás o atleta mais titulado no plano individual desta competição que já leva 55 edições.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Telma Monteiro de bronze nas Olimpíadas do Rio de Janeiro 2016

São abertas hoje, a título de exceção, as portas do Museu Virtual do Desporto Português para evocar e posteriormente guardar nestas vitrines virtuais um novo feito do desporto português no palco do maior evento desportivo do planeta, vulgo os Jogos Olímpicos. Uma conquista alcançada nas Olimpíadas que decorrem no Rio de Janeiro, no dia 8 de agosto, um dia que será lembrado pela eternidade fora como o momento em que a melhor judoca portuguesa da história - pelo menos até ao instante em que são escritas estas linhas - arrecadou a medalha de bronze na categoria de -57kg após derrotar a romena Corina Caprioriu. Nascida em Lisboa, a 27 de dezembro de 1985, Telma Monteiro abraçou a prática de judo aos 14 anos, tendo, de lá para cá, construído um currículo verdadeiramente notável no seio da modalidade, onde se destacam, entre dezenas de competições nacionais e internacionais, as conquistas de cinco títulos euros (2006, 2007, 2009, 2012 e 2014), quatro vice-campeonatos do Mundo (2007, 2009, 2010 e 2014) e uma medalha de ouro nos Jogos Europeus de Baku (2015). A cereja no topo do bolo foi conquistada na Cidade Maravilhosa (Rio de Janeiro), onde a judoca participou nos seus quartos Jogos Olímpicos (os primeiros foram em Atenas, em 2004). Na corrida ao bronze, Telma começou por atirar ao tatami (tapete) a neozelandesa Darcina Manuel, seguindo-se a derrota com Dorjsuren, da Mongólia, facto que colocaria a portuguesa no caminho pela disputa da medalha de bronze. E o primeiro obstáculo na fase da repescagem foi a francesa Automne Pavia, que quatro anos antes, em Londres, havia conquistado precisamente o bronze olímpico. Mas diante de uma super Telma a judoca gaulesa não teve argumentos para defender a medalha e acabou por cair. No combate decisivo na luta pelo bronze, no combate mais importante da vida de Telma Monteiro, foi então a vez da romena Caprioriu tombar, tendo a atleta lusa pontuado com yuko nos instantes iniciais, defendendo-se com mestria dos ataques da adversária até ao fim, garantindo dessa forma a medalha mais importante da sua vasta e gloriosa carreira. Parabéns Telma.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Salto rumo a um novo bronze olímpico

O ano de 1936 é um bom exemplo de como os meios políticos procuraram - em determinados períodos da história da Humanidade - usar a popularidade dos grandes eventos desportivos para evidenciar ao Mundo as suas ideologias. Berlim acolheu nesse referido ano aquela que era já inequivocamente a maior manifestação desportiva do planeta, os Jogos Olímpicos. A Alemanha de então vivia sob o regime nazista comandado por Adolf Hitler. Vendo nos Jogos a ferramenta ideal para mostrar ao Mundo a superioridade da raça ariana o líder nazi não se pouparia a esforços para fazer destas as Olimpíadas mais espetaculares da história. Hitler montou então uma autêntica máquina de propaganda política através dos Jogos. Com um orçamento ilimitado não deixou ao acaso o mínimo detalhe que pudesse colocar em perigo a sua estratégia de assalto ao poder através do mega evento desportivo. Um estádio olímpico foi construído propositadamente, e aos atletas alemães tudo era dado e permitido para que se pudessem preparar conveniente para o evento e desta forma conquistar o máximo número de medalhas de ouro que traduzissem a superioridade da raça ariana. Bom, esta é uma curta descrição do cenário em que decorreram as Olimpíadas de 1936, que no final acabariam, na verdade, por provocar um terrível amargo de boca ao próprio Hitler - muito por culpa de um tal Jesse Owens - mas que aos portugueses deixaram doces lembranças. E são precisamente essas doces lembranças que servem de mote para a viagem ao passado que hoje iremos efetuar, uma viagem rumo à medalha de bronze conquistada pela nação lusa em Berlim. Feito alcançado por uma modalidade que na primeira década do século XX trouxe alegrias e prestígio a Portugal: o hipismo. Nunca será demais recordar que foi pela mão de três nobres cavaleiros (António Borges, Hélder de Souza e José Mouzinho) que em 1924 o nosso país arrecadou nos Jogos de Paris a primeira medalha olímpica da sua história, efeméride já aqui relatada com pompa e circunstância no Museu Virtual do Desporto Português. Doze anos depois da conquista do bronze olímpico na Cidade Luz eis que Portugal voltou a saltar com êxito rumo a uma nova medalha de bronze, desta feita por intermédio de José Beltrão, Luís Mena e Silva, e Domingos de Sousa Coutinho, três cavaleiros provenientes da mais fina flor do hipismo português daquele tempo que nos Jogos de Berlim subiram ao degrau mais baixo do pódio no Grande Prémio das Nações. Porém, a epopeia dos três oficiais do Exército não principiou da melhor forma. Na antecâmara da viagem para Berlim, Silvain, o cavalo do tenente Mena e Silva sofreu uma queda e ficou sem condições físicas de prosseguir a aventura olímpica, facto que desde logo colocou em risco a presença do cavaleiro nos Jogos. O também tenente José Beltrão, que haveria de ser a pedra fundamental na conquista do bronze olímpico, desenrascou em cima do embarque o seu companheiro de equipa, emprestando-lhe um dos seus dois cavalos, no caso o Fossette. Assunto resolvido. Estavam no entanto longe de ter um fim as dificuldades da equipa portuguesa nesta sua primeira aventura olímpica. As maiores complicações surgiram quiçá no dia da prova, do Grande Prémio das Nações, que juntou 18 equipas em busca das medalhas. Foi uma competição dura, difícil, com um traçado composto por 13 obstáculos de elevado grau de dificuldade, facto comprovado pela desistência de 11 equipas. Com raça, alma (enorme) e talento os portugueses aguentarem-se em pista, contornaram os obstáculos, acabando por chegar às medalhas com todo o mérito e justiça. Montando o seu Merle Blanc, o capitão Sousa Coutinho foi 16º, enquanto que Fossette e Mena e Silva ficou na 21ª posição. A performance de José Beltrão e do seu (cavalo) Biscuit - os últimos da equipa nacional a entrar na pista - haveria de ser decisiva na conquista da medalha. O sexto lugar por si alcançado somado aos resultados dos seus companheiros de equipa seria suficiente para que Portugal subisse ao pódio e receber a medalha de bronze, a terceira da sua história olímpica, e a segunda obtida por através do hipismo. Em termos de pontuação Portugal somou neste Grande Prémio das Nações 56 pontos, sendo apenas superado pela Alemanha (medalha de ouro) e pela Holanda (medalha de prata). Beltrão (que haveria de ter desfecho de vida trágico, já que a queda de um cavalo durante um treino no Hipódromo do Campo Grande, em 1948, tirou-lhe a vida) fez em Berlim uma prova quase perfeita, e não fossem os três obstáculos derrubados talvez o bronze tivesse sido transformado em ouro.  

Flashes Biográficos (1)... Dário Canas

DÁRIO CANAS (Tiro): Iniciamos hoje uma nova rubrica no Museu Virtual do Desporto Português, onde na qual, e de forma breve, se pretende traçar o registo biográfico dos nomes que fizeram - ou fazem - parte da história desportiva de Portugal. A partida é dada com uma figura do tiro, uma ilustre figura, melhor dizendo, não só pelo seu trajeto desportivo na modalidade como de igual modo pelo relevo alcançado nas áreas da política e do associativismo vida política e social. Dário Canas é o nome deste cidadão nascido em Lisboa na década de 80 do século XIX - mais concretamente a 29 de fevereiro de 1884 - que no início do século seguinte se viria a revelar como um dos mais virtuosos atiradores nacionais, talento que o iria levar em duas ocasiões ao palco principal do desporto global, o mesmo será dizer, os Jogos Olímpicos. Dário Canas é também um nome mítico de um dos emblemas mais antigos de Portugal, o Ginásio Clube Português (GCP), fundado em 1875. Clube eclético e dinâmico que em 1902 organizou uma das primeiras grandes competições de tiro no nosso país, a I Cruzada de Tiro Nacional, que viria a consagrar Canas como o primeiro civil a conquistar o diploma de atirador de 1ª classe. Empresário agrícola de profissão, Dário Canas viu-lhe ser reconhecida a sua mestria de exímio atirador no verão de 1920, altura em que integra a delegação portuguesa nos Jogos Olímpicos de Antuérpia. Juntamente com Hermínio Rebelo, António dos Santos, António Andréa Ferreira, António da Silva Martins e António Montez ele foi um dos atletas que compôs a equipa nacional de tiro que pela primeira vez levou a modalidade a uma Olimpíada. Facto que o fez entrar, uma vez mais, para a história do GCP, já que ao lado de Frederico Paredes, João Sasseti, Jorge Paiva e Henrique da Silveira (todos atletas de esgrima) levou pela primeira vez o nome deste clube aos Jogos. Na cidade dos diamantes, como é mundialmente conhecida Antuérpia, Canas participou em cinco disciplinas de tiro, nomeadamente na de Carabina 300 a 600 metros por equipas, onde obteve um 11º lugar num total de 14 nações participantes; na de Carabina 300 metros Deitado também por equipas, não indo além do 15º e último lugar da classificação final; na de Carabina 300 metros de Pé novamente em equipas em que foi 11º posicionado num total de 15 combinados; na disciplina de Carabina 600 metros Deitado por equipas onde não foi além de um 14º e último lugar na geral; e na prova coletiva de Revólver a 30 metros, em que se quedou pelo 8º e último lugar da classificação geral. Não foi, como os resultados indicam, uma prestação brilhante da equipa nacional, valendo, no entanto, o facto de ter competido com os melhores atiradores do planeta daquela época. Quatros anos volvidos a equipa nacional de tiro voltou aos Jogos, desta feita realizados em Paris, tendo Dário Canas integrado o leque de exímios atiradores portugueses. Na Cidade Luz participou apenas em duas provas, sendo que em uma delas atuou de forma individual, a sua única aparição olímpica na variante singular, em que alcançou o 61º posto na prova de arma livre. Na mesma disciplina mas na variante coletiva foi 17º num total de 18 equipas.
A sua ligação ao desporto, e ao tiro em particular, estendeu-se ao dirigismo associativo. Entre 1932 e 1937 foi membro do Comité Olímpico Português, tendo ainda desempenhado funções de presidente da Federação Nacional de Tiro e vice-presidente do GCP. Noutros campos o seu nome fica ligado à atividade agrícola, onde na qual foi um dedicado e vincado empresário, tendo em 1952 sido co-fundador da Cooperativa Agrícola dos Produtores de Leite, da qual foi presidente de Direção e da Assembleia Geral. Neste mesmo ano fundou ainda a Companhia Agrícola de Compra e Venda de Loures, município este onde na área política entre 1933 e 1949 desempenhou funções de presidente da Câmara Municipal. Ainda no plano político - outra área onde se destacou - foi membro da Assembleia da República na I e na II Lesgislatura (entre 1935 e 1942) tendo como área de intervenção a Educação Física e Desportos, ficando aqui célebre pelo facto de ter ajudado à reorganização da Educação Física no ensino secundário. Faleceu a 3 de junho de 1966.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

ENTREVISTA - José Garrido relembra o "dream team" do Sporting que conquistou para Portugal a primeira prova europeia de hóquei patins

José Garrido, com as cores do seu Sporting
Pode ir longe na estrada do tempo, mas jamais irá cair na berma do esquecimento, tal foi a sua importância não só para a história do hóquei em patins português, como do próprio desporto nacional. Falamos da épica caminhada da equipa do Sporting Clube de Portugal na edição de 1976/77 da então Taça dos Clubes Campeões Europeus - hoje denominada de Liga Europeia. Perdão, da equipa do Sporting não, do dream team (equipa de sonho) dos leões de Alvalade, daquela que nos dias de hoje é recordada como a equipa maravilha do hóquei patins... planetário! Não estaremos a exagerar, longe disso. Na realidade esta equipa transportou a modalidade para a dimensão do espetáculo, graças ao virtuosismo individual de jogadores como Sobrinho, Chana, Ramalhete, Júlio Rendeiro, ou o mestre dos mestres, António Livramento. Se de futebol estivéssemos a falar, diríamos que se tratou de uma equipa de galáticos, de autênticos magos do stick e dos patins. Além de interpretar o hóquei em patins com uma qualidade ímpar, aquela lendária equipa do Sporting conquistou um lugar na história por ter sido a primeira a trazer para solo português um troféu continental ao nível de clubes. Já lá vão 37 anos, mas não se esquece, jamais. E porque o Museu Virtual do Desporto Português tem por missão guardar para a eternidade os feitos - e os seus protagonistas - do desporto nacional, eis que recebemos hoje a visita de um ilustre membro da equipa maravilha do Sporting dessa inesquecível época de 76/77. José António Pereira Garrido, ou simplesmente, Garrido, fez, a nosso convite, uma viagem no tempo para recordar - ainda que em breves palavras - os dias de glórias vividos de leão ao peito, e muito em particular a caminhada triunfal na prova rainha do hóquei patinado europeu. O stick é seu Garrido. 

Museu Virtual do Desporto Português (MVDP): Como qualquer história também a do Garrido teve um início...
Garrido (G): ... Sim, a minha história começa quando eu tinha 9 anos de idade, altura em que na rua aprendi a equilibrar-me nos patins que o meu pai me tinha oferecido. Lembro-me que os usava presos a umas galochas (!). Como vivia em Benfica (nota: Garrido é natural de Lisboa, onde nasceu a 8 de janeiro de 1957) dirigi-me à secção de hóquei em patins do Clube Futebol Benfica, o popular Fófó, no sentido de ali, no clube do meu bairro, começar a praticar a modalidade um pouco mais a sério. Para minha grande desilusão fui recusado! Deram-me a justificação de pretenderem integrar miúdos com mais experiência...

MVDP: ... Mas não se deu por vencido logo à primeira...
G: ...Não. Aos 10 anos, acompanhado pelo meu pai, fui treinar ao Sporting, que era, e é, o meu clube. Fiquei, e comecei a treinar naquele mesmo dia. Recordo que o treinador era o Luís Barata, e após dois meses de treinos tornei-me jogador federado. Estive dois anos na equipa de iniciados, e depois de uma época como juvenil passei diretamente para a equipa de juniores. Em todos estes escalões ganhei títulos, quer distritais, quer nacionais. Aliás, foi enquanto atleta júnior que fui chamado à seleção nacional da categoria, tendo sido campeão europeu em dois anos seguidos, em 1975 e em 1976, sendo que o primeiro título foi alcançado em Darmstadt, na Alemanha. João de Brito era o selecionador nacional dessa altura. Um ano mais tarde voltei a ser campeão europeu, desta feita em Barcelos, com Luís Barata na qualidade de selecionador. Em 1977 subir a sénior, integrando aquela que já era a super equipa de hóquei patins daqueles anos.
A célebre equipa do Sporting que em 1977 conquistou de forma brilhante a Europa do hóquei em patins (Garrido é o primeiro jogador da fila de cima a contar da direita para a esquerda)
MVDP: Chegou ao patamar sénior precisamente na época em que o Sporting encantou o planeta do hóquei em patins com a conquista da Taça dos Campeões Europeus, a primeira eurotaça que viajou para Portugal, no que a hóquei patinado diz respeito. É caso para dizer que o Garrido não poderia ter tido melhor estreia no escalão sénior.
G: Sim, em 1977, no meu primeiro ano de sénior, integrei aquela super equipa que a nível nacional ganhou tudo o que havia para ganhar. Posso dizer que encontrei um ambiente fantástico naquele balneário. Tive o prazer de conviver com grandes hoquistas e sobretudo com grandes homens que me ajudaram a formar-me não só como jogador como também como ser humano. Como referiu na pergunta, este primeiro ano de sénior coincidiu com a conquista europeia, a primeira e única da minha carreira - ao nível de clubes - e sem dúvida o título mais saboroso que obtive. Recordo-me, em particular, da inesquecível chegada a Lisboa - no regresso de Espanha, após ter conquistado o título no rinque do Villanueva - onde uma multidão nos esperava.

O duelo na piscina do Voltregá
MVDP: Apesar de aquele Sporting ter uma equipa do outro mundo a caminhada para o título foi dura, como comprova a meia final diante do campeão da Europa em título, o Voltregá.
G: A primeira mão da meia final foi jogada em Espanha, ao ar livre, e à chuva! Nós propusemos jogar quando a chuva abrandasse ou então no dia seguinte, o que não foi aceite pela equipa da casa. A bola praticamente não rolava e nós ficavámos em zonas pontuais - do rinque - prevalecendo o passe.
Perdemos por 5-2. Em Lisboa vencemos por 8-3 diante de um pavilhão cheio. Na final jogámos a primeira mão em Lisboa, e recordo-me que não cabia um alfinete na Nave de Alvalade. Curiosamente, quatro horas antes do início do jogo toda a equipa foi lanchar a uma churrascaria que havia na zona do Campo Grande e o pavilhão já estava lotado! Vencemos por 6-0.
Em Espanha, na segunda mão, o Sporting fez-se acompanhar por muitos adeptos e voltámos a vencer, desta vez por 6-3, depois de entrarmos a perder por 0-2.
Nesse jogo, o Livramento, o Chana, e o Ramalhete fizeram um jogo brilhante, ao ponto de os próprios adeptos espanhóis nos aplaudirem de pé no final.

Garrido, na atualidade
MVDP: Por falar em António Livramento, o que recorda dessa lenda do hóquei em patins mundial?
G: Não existem palavras para descrever o António Livramento, o melhor jogador do Mundo de todos os tempos. Era acima de tudo um grande ser humano, e mesmo sabendo que era o melhor hoquista do planeta mantinha-se humilde, e sempre pronto para ajudar os colegas. Ainda em relação aquela grande equipa do Sporting não posso deixar de salientar dois outros grandes nomes do clube. O primeiro, o nosso treinador, o Torcato Ferreira, e o segundo um grande senhor, um grande presidente, o senhor João Rocha, que nos levou a alcançar todos esses feitos.

MDVP: Para terminar esta breve visita ao Museu Virtual do Desporto Português, continua ligado à modalidade?
G: Depois de sair do Sporting defendi as cores do Belenenses, Sesimbra, Sanjoanense, e o Campo de Ourique, onde dei por encerrada a minha carreira. Hoje, continuo a jogar ao nível de veteranos, só para matar saudades dos velhos tempos.

VÍDEO: VILlANUEVA - SPORTING (2ª mão da final da Taça dos Campeões Europeus de 1977)
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terça-feira, 8 de julho de 2014

Nicolau e Trindade, os mestres na arte de pedalar que deram vida à rivalidade entre Benfica e Sporting

José Maria Nicolau (Benfica)
e Alfredo Trindade (Sporting)
Nasceu dentro de um campo de futebol mas foi graças ao ciclismo que atingiu a gigantesca dimensão patenteada nos dias de hoje. Esta é uma visão sustentada por muitos historiadores desportivos lusitanos, para quem a eterna, intensa, e apaixonante rivalidade entre Benfica e Sporting viu a luz do dia graças às corridas de bicicletas travadas nos princípios da década de 30 do século passado, muito por culpa de duas das maiores figuras do ciclismo nacional, Alfredo Trindade e José Maria Nicolau. Ambos naturais do Cartaxo eles edificaram nas estradas - quase medievais - do Portugal de então duelos intensos e apaixonantes, duelos que chegariam ao patamar do misticismo do desporto nacional, duelos que levaram os nomes de Benfica e Sporting aos cantos mais escondidos do país. Eles foram os heróis de uma época em que as grandes festas desportivas - ou os grandes eventos - eram quase um exclusivo das grandes cidades - Lisboa, Porto, ou Coimbra - deixando as pequenas povoações - sobretudo as do interior - órfãs da emoção e entusiasmo que o fenómeno desportivo emana. E aqui há pois que fazer uma vénia ao ciclismo, a modalidade responsável por levar a festa do desporto, as emoções do desporto, aos recantos mais longínquos daquele Portugal de início de século. A chegada de uma corrida velocipédica a uma qualquer aldeia ou vila do interior dava quase aso a honras de feriado municipal! O ciclismo galvanizava o povo, que apinhava as bermas das estradas por onde a caravana serpenteasse, na ânsia de ver os heróis do pedal. Nicolau e Trindade foram durante anos as personagens principais desta onda de entusiasmo, foram eles os responsáveis pelo crescimento - em termos de adeptos - de Benfica e Sporting um pouco por todo o território nacional, e na opinião de muitos a popularização - como hoje a conhecemos - do dérbi eterno a eles se deve.

O baixinho e franzino Trindade
e o gigante e robusto Nicolau
Mais do que rivais, mais do que astros na arte de pedalar, eles eram sobretudo amigos, grandes amigos. Nasceram, como vimos, no mesmo concelho, o Cartaxo, no ano de 1908, separados apenas por nove meses de diferença. Apesar de mais velho que o seu conterrâneo, Trindade (que nasceu no dia 3 de janeiro) abraçou o ciclismo depois de Nicolau (que veio ao Mundo a 15 de outubro). José Maria Nicolau iniciou a sua aventura velocipédia em 1928 - curiosamente um ano depois da ocorrência da primeira edição da Volta a Portugal - no Carcavelinhos, ao passo que Trindade começou a correr em 1931 na pequena coletividade lisboeta do União do Rio de Janeiro (com sede no Bairro Alto). Apesar de terem semelhanças ao nível de berço, de Bilhete de Identidade, e de terem sido ambos talentos natos na arte de pedalar, Trindade e Nicolau eram a antítese um do outro em termos de estrutura física. O primeiro era baixinho, franzino, ao passo que o segundo era alto, robusto, uma força da natureza. Nada que os impedisse, cada um à sua maneira, de escrever algumas das páginas mais deslumbrantes da história do ciclismo nacional, sobretudo na prova rainha do calendário velocipédico português, a Volta a Portugal.

Uma das muitas batalhas épicas travadas
entre os dois ciclistas com
as camisolas dos emblemas da capital
O primeiro duelo mítico entre os dois lendários corredores aconteceu na segunda edição da Volta, em 1931. Na altura, Nicolau vestia já a camisola do Benfica, clube para o qual havia entrado dois anos antes, ao passo que Trindade - como já vimos - fazia a sua estreia na alta roda do ciclismo nacional com as cores do União do Rio de Janeiro. Eles seriam os protagonistas de um pelotão composto por 29 corredores que no dia 6 de setembro desse ano partiu desde a Cova da Piedade até Setúbal numa tirada de 40km, a qual seria ganha pelo ciclista do Benfica. Ao longo da prova a robustez física e coragem infindável de Nicolau travou acesos e épicos duelos com a frágil mas batalhadora figura de Trindade, discutindo taco a taco a vitória na Volta até à última etapa, que ligou as Caldas da Rainha ao Estoril. Ali, a nação benfiquista entrou em delírio, graças à vitória final de Nicolau (vencedor de sete etapas nesta edição), que assim vencia a primeira Volta a Portugal da sua nobre carreira, com uma vantagem de 29 segundos sobre o amigo e rival Trindade - que seria segundo posicionado - na classificação geral.

Rivais, mas amigos, tanto na estrada
como na vida
Um ano depois deu-se a desforra, Trindade venceu a Volta. Ainda com as cores do clube do Bairro Alto o pequeno, mas endiabrado, ciclista levou a melhor sobre o seu eterno rival por apenas três segundos de diferença. 56 ciclistas voltaram a partir da Cova da Piedade rumo a Setúbal numa primeira etapa onde logo se viu que a discussão pela vitória final iria ser entre Trindade e Nicolau. Ao longo das 19 etapas o duelo entre ambos animou uma corrida que pela primeira vez ultrapassou as fronteiras do território nacional, ao efetuar uma passagem por Vigo, onde Alfredo Trindade conquistava uma das suas quatro vitórias de etapa alcançadas ao longo da Volta de 32. José Maria Nicolau ainda vestiu da amarelo até à sétima etapa, vindo a perder - até final - a camisola mais desejada da corrida para Trindade na tirada número oito, que ligou Elvas a Castelo Branco. Rezam as crónicas que o triunfo final de Trindade se ficou a dever ao azar extremo de Nicolau. Uma queda do ciclista do Benfica na etapa número nove, que ligou Castelo Branco a Viseu, fê-lo perder terreno para o corredor do União do Rio de Janeiro, que concluiu essa tirada com 17 minutos de vantagem sobre o seu conterrâneo. Porém, a garra e determinação de Nicolau viriam ao de cima nas etapas seguintes, tendo o corredor recuperado algum tempo no decorrer da prova, fruto de algumas vitórias em etapas (conquistou 11 triunfos nas 19 etapas da Volta de 32). Porém, e como diz o velho ditado, um azar nunca vem só, e na etapa final (que ligou o Bombarral a Lisboa), com a Volta ao rubro no que toca à incógnita quanto ao seu vencedor, uma nova queda de José Maria Nicolau desfez as dúvidas quanto ao campeão, e mesmo ganhando essa derradeira etapa o corredor do Benfica não conseguiu anular os três segundos de desvantagem em relação a Alfredo Trindade, que assim vencia a primeira Volta a Portugal da sua carreira.

Nicolau e Trindade posam
para a fotografia junto de uma
das grandes divas do cinema
lusitano: Beatriz Costa
Já com a camisola do Sporting como manto sagrado Alfredo Trindade tornou-se - no ano seguinte - no primeiro ciclista a bisar naquela que era já a prova rainha do ciclismo português. A Volta de 1933 foi talvez aquela em que a luta acérrima entre os dois ciclistas menos se fez notar, já que logo na segunda etapa - que ligou Lisboa a Santarém - Nicolau adoeceu e foi forçado a desistir, estendendo desta forma a passadeira ao pequeno corredor do Sporting (vencedor de oito etapas nesta edição), o qual iria terminar a prova no primeiro posto com uma vantagem abismal de 44 minutos (!) sobre o segundo colocado, o seu companheiro de equipa Ezequiel Lino.
Na Volta do ano seguinte os papéis inverteram-se, ou seja, o azar bateu à porta de Trindade, forçado a abandonar a corrida na terceira etapa (Faro-Évora) após uma aparatosa queda que o iria levar ao hospital. Sem adversários capazes de travar a sua genialidade, Nicolau ficou à vontade para conquistar a sua segunda Volta a Portugal, terminando a última etapa com uma vantagem de 18 minutos na classificação geral sobre o sportinguista Ezequiel Lino.
Este seria o derradeiro capítulo da mítica dupla no seio da Volta a Portugal, embora na edição de 1935 tivessem ambos integrado o pelotão na partida da Cova da Piedade, acabando os dois por desistir no decorrer da prova. Contudo, a empolgante fábula de Trindade e Nicolau não se resumiu à prova rainha do ciclismo luso, muito pelo contrário. Clássicas como Porto-Lisboa, Porto-Vigo, ou Lisboa-Coimbra, testemunharam emocionantes capítulos da génese do fervoroso dérbi Benfica-Sporting.
Abandonaram ambos as lides do ciclismo - enquanto praticantes - no final da década de 30, tendo ambos enverdado posteriormente pela carreira de treinadores. Facto curioso é que o leão Trindade era o treinador do Benfica quando o maior mito da história do clube - no que concerne a ciclismo - faleceu na sequência de um acidente de viação, em agosto de 1969. Oito anos mais tarde foi a vez de Trindade pedalar rumo à eternidade, onde por certo continua a travar apaixonantes duelos com o seu amigo Nicolau.

Vídeo: EXCERTO DO DOCUMENTÁRIO: 
ALFREDO TRINDADE VS JOSÉ MARIA NICOLAU
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